sábado, 1 de janeiro de 2011

Um novo ano na companhia do Senhor Jesus!

Uma das crônicas de C. S. Lewis a respeito do prodigioso país de Nárnia traz a história de um menino que fora roubado por um cavalo falante, e, junto a ele foge para a terra de Aslan. Gostaria de, neste primeiro dia do ano, transcrever para vocês um trecho desse livro.
Depois de muitas desventuras, o menino se vê só, com fome e vulnerável a um exército que pretende destruir Nárnia e sua vizinha, Arquelândia. No entanto, nesse cenário insólito o desgraçado menino encontra a Graça e descobre que nunca estivera realmente só.

Um susto interrompeu os seus tristes pensamentos. Alguém ou alguma coisa caminhava ao seu lado. Nas trevas não podia ver nada. E a coisa (ou pessoa) ia tão silenciosamente que ele mal podia ouvir suas pisadas. Ouvia, sim, uma respiração: o invisível companheiro de fato respirava com vontade; devia ser uma criatura enorme. Foi um grande choque.

Depois de muita hesitação e do temor quanto ao que aquela criatura poderia lhe infligir Shasta finalmente perguntou:
- Quem é você? – murmurou baixinho.
- Alguém que esperava por sua voz – respondeu a coisa. O tom não era alto, mas amplo e profundo.
- Você é... um gigante?
- Pode me chamar de gigante – disse a grande voz. – Mas não me pareço com as criaturas que você chama de gigantes.
- Não consigo vê-lo – falou Shasta, depois de muito tentar. Uma coisa terrível lhe passou pela cabeça. Com a voz trêmula de choro, perguntou:
- Você não é... não é uma coisa morta... é? Vá embora, por favor. Nunca lhe fiz nenhum mal. Ó, sou o cara mais desgraçado desse mundo!
Sentiu novamente o hálito quente da coisa no rosto e na mão.
- Morto não respira assim. Pode me contar as suas tristezas, rapaz.
O hálito deu a Shasta um pouco mais de confiança. Contou então que jamais conhecera pai e mãe, que fora criado por um pescador muito severo. Contou sobre como fugira, sobre os leões que os perseguiram, os perigos em Tashbaan, a noite entre os túmulos, as feras que uivavam no deserto, o calor e a sede durante a caminhada, e o outro leão que surgiu quando estavam quase chegando, Aravis ferida... Contou, por fim, que estava com fome, pois não comia nada havia muito tempo.
- Não acho que seja um desgraçado – disse a grande voz.
- Mas não foi falta de sorte ter encontrado tantos leões?
- Só há um leão – respondeu a voz.
- Não estou entendendo nada. Havia pelo menos dois naquela noite...
- Só há um leão, mas tem o pé ligeiro.
- Como sabe disso?
- Eu sou o leão.
Shasta escancarou a boca e não disse nada. A voz continuou:
- Fui eu o leão que o forçou a encontrar-se com Aravis. Fui eu o gato que o consolou na casa dos mortos. Fui eu o leão que espantou os chacais para que você dormisse. Fui eu o leão que espantou os cavalos a fim de que chegassem a tempo de avisar o rei Luna. Fui eu o leão que empurrou para a praia a canoa em que você dormia, uma criança quase morta, para que um homem, acordado à meia-noite, o acolhesse.
- Então foi você que machucou Aravis?
- Fui eu.
- Mas por quê?!
- Filho! Estou contando a sua história, não a dela. A cada um só conto a história que lhe pertence.
- Quem é você?
- Eu mesmo – respondeu a voz, com uma entonação tão profunda que a terra estremeceu. E de novo: - Eu mesmo – com um murmúrio tão suave que mal se podia perceber, e parecia, no entanto, que esse murmúrio agitava toda a folhagem à volta.
Shasta já não temia que a voz pertencesse a alguma coisa que o devorasse; nem temia que fosse a voz de um fantasma. Uma coisa nova aconteceu, um tremor que lhe deu certa alegria.
A névoa passou do pardo para o cinza e do cinza para o branco. Devia ter começado pouco antes, enquanto ele estava absorvido conversando com a coisa.
A brancura ao redor já começava a fulgir. Passarinhos cantavam em algum lugar. A noite estava por um fio. Já enxergava bastante bem a crina e as orelhas do cavalo. Uma luz dourada surgiu à esquerda, e Shasta pensou que fosse o sol.
Caminhando a seu lado, maior do que o cavalo, estava um leão. O cavalo não parecia ter medo, ou talvez não o visse. Era dele que vinha a luz dourada. Ninguém jamais viu algo tão belo e terrível.
Felizmente o menino vivera toda a sua vida no sul, e não havia escutado os casos, cochichados em Tashbaan, sobre um tétrico demônio de Nárnia que costumava aparecer em forma de leão. E, naturalmente, também tudo ignorava sobre as verdadeiras histórias de Aslam, o Grande Leão, o filho do Imperador-dos-Mares, o Rei dos Grandes Reis de Nárnia. Mas, depois de espiar mais uma vez o Leão, pulou do cavalo. Não conseguia dizer nada, mas também não queria dizer nada, e sabia que nada precisava dizer.
O Grande Rei encaminhou-se para ele. A juba e um perfume estranho e solene, que nela pairava, cercaram o menino. O leão tocou a fronte de Shasta com a língua. Os olhos de ambos encontraram-se. Depois, instantaneamente, a brancura da névoa misturou-se com o brilho ardente do Leão num redemoinho de glória, e os dois sumiram. Shasta se viu só, com o cavalo, na relva de uma colina, sob um céu azul. Todas as aves do mundo cantavam.

A história de Shasta, em princípio tão cheia de infortúnios, toma outra feição com a revelação de Aslam. No meio da dor ele, o Leão, estava lá. Ele não retirou os espinhos do caminho, mas permaneceu ao seu lado, ainda que o menino somente tivesse percebido a sua presença neste último encontro. Shasta descobriu que não era um desgraçado afinal, mas, pelo contrário, alvo da Graça e do cuidado do Leão. Esse leão terrível e glorioso, mas de uma voz próxima, profunda e terna...
Penso ser esta uma excelente estória pra refletirmos hoje. Olhar pro passado não com a amargura pelos espinhos, mas com confiança nAquele que nunca nos abandona.

"... certamente eu estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos"
. Mateus 28: 20b

1 comentários:

Annelise disse...

Incrível...a percepção da realidade e de quem está a frente (e atrás e dos lados) cuidando de cada detalhe é incrível e algo que só se desfruta nEle...